Mostrar mensagens com a etiqueta Cidadania Activa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cidadania Activa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

LEIRIA - Que turismo?

ACÁCIO DE SOUSA
Ex-Presidente da ADLEI


Perdido o estatuto de sede de “Região de Turismo”, a actual “Entidade de Turismo Leiria-Fátima (ETLF)” está sem dinheiro, diz a imprensa, numa conjuntura que agrava as dificuldades de persuasão junto aos diversos parceiros públicos.

Ao longo dos últimos anos, os problemas herdados justificaram-se com a má vontade dos governos. A avaliação de um núcleo que deve ser promotor de competências de alta atracção para o turista e de orientação de prioridades não tem vindo a público e neste negócio o que importa é cativar um largo segmento de mercado que deixe dinheiro e valide o investimento dos parceiros.

Dominando na opinião pública que é um destino de satisfação partidária, está a ETLF em risco, ainda mais com o pessoal que ali trabalha? E as funções desta casa terão que ser todas suportadas pelo erário público?

Em 2007, anunciava-se o PENT - Programa Estratégico Nacional do Turismo, problemátco para o Turismo de Leiria-Fátima. A ADLEI organizou, então, o seu IV Congresso com uma secção dedicada a esta questão. A sobranceria como isto foi encarado pelas autoridades locais foi esclarecedora. Em síntese, tínhamos Fátima e isso bastava. As entidades oficiais cingiram-se à vulgar publicidade e um ex-responsável que se aprestou a trazer alguma coisa de novo, mandou para acta um texto que nada tinha a ver com o que disse. Perdeu-se uma oportunidade de debate sério e forte.

Na altura, o Turismo do Oeste recusou participar, ouvindo eu já a mesma resposta que acabou agora por ser dada em tom mordaz com os ases na mão, às recentes pretensões de Leiria, a propósito de uma urgente ideia de fusão. Mais ou menos assim: “então não têm lá Fátima que vos chega? Não é lá que está a qualidade?”.

Ora, uma coisa é Fátima enquanto local de culto. Outra, é Fátima como pretensão de absoluto destino turístico, devendo-se distinguir quantos são os verdadeiros turistas entre os milhões que a visitam anualmente, e o que temos de inovador para lhes oferecer.

Alguém, por cá, garantiu um produto que fosse um verdadeiro “colar de pérolas” irresistível e identificado numa análise paga há uns anos? Ou teve em conta os interesses dos visitantes de Fátima, objecto de estudo de uma professora do IPL?

As centralidades, postas em termos demasiado bairristas, apesar de existirem e terem potencial, podem levar a que o reduto em que muitos se fecham implique secessão e o estrangulamento que dinâmicas exteriores poderão trazer.

A ADLEI já quis discutir o tema. É altura de voltar ao debate sério e sem pinças.

in Diário de Leiria, 12 de Setembro de 2011

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Recordando o Eng.º José Lopes Vieira

JOÃO ELISEU
Associado da ADLEI 

Na reunião da Câmara Municipal de Leiria, de 4 de Março de 1937, foi deliberado que o Marachão, entre o edifício da actual Entidade Regional de Turismo e a Ponte do Arrabal, passasse a ser denominado por Alameda Dr. José Lopes Vieira.  É por isso que, na proximidade daquele edifício, existe um plinto toponímico confirmando tal decisão.

Embora bacharel em filologia, José Lopes Vieira tirou posteriormente, em França, o curso de engenheiro silvicultor, tendo-se especializado nos novos métodos florestais de correcção torrencial. E, foi face a esta sua especialização que a cidade de Leiria muito lhe ficou a dever.

Com o aumento da população, e a consequente desarborização verificada, a partir do início do século catorze, das colinas e das zonas médias da bacia hidrográfica do Rio Lis, iniciou‑se, nas mesmas, um processo de erosão torrencial, com o consequente transporte, para juzante, de volumes consideráveis de materiais arenosos, dado que muitas linhas de água tinham declives pronunciados e atravessavam terrenos de fácil desagregação.

Com a deposição dessas areias, no leito do Rio Lis, e com a consequente redução da sua secção de vazão, já em 26 de Março de 1475 se registou em Leiria a primeira grande inundação. E outras grandes inundações se verificaram, sendo memoráveis as de Junho de 1596, Dezembro de 1600, Junho de 1617 e Novembro de 1646.   Por esse motivo, a Real Casa do Infantado, que superintendia nos campos de Ulmar, viu-se forçada, em 1720, a desviar o curso do Rio Lis dentro da cidade, para o percurso actual, afastando-o da proximidade da actual Praça Rodrigues Lobo, e tornando-o mais curto e regular.

A progressiva deposição de areias, no novo troço, em breve originou novas inundações, pelo que em 1875 a edilidade iniciou a construção de muros e motas em ambas as margens do rio. Isso não impediu que em Novembro de 1900, com uma enorme cheia, e com a sua destruição parcial daquelas motas, se tivesse verificado nova inundação da cidade, com prejuízos consideráveis. 

Como em 24 de Dezembro de 1901 foram instituídos, no país, os serviços de hidráulica florestal, foi simultaneamente determinado que, a título de ensaio, os trabalhos fossem iniciados na bacia hidrográfica do Rio Lis, sob a responsabilidade do engenheiro José Lopes Vieira.

Este técnico percorreu as linhas de água tributárias do Rio Lis, seleccionando as que necessitavam de trabalhos de correcção e estabilização e, a rápida elaboração de projectos e orçamentos permitiu que os trabalhos se iniciassem, logo em 1902, em linhas de água da zona da Caranguejeira. Complementando esta actividade foram submetidos ao regime florestal, em 8 de Outubro de 1903, diversos baldios das freguesias de Caranguejeira, Marrazes e Pousos, onde se realizaram trabalhos de arborização.

Os resultados foram notáveis e imediatos na zona da Caranguejeira e, em breve, na cidade começava a verificar-se o aprofundamento do leito do rio. Pena foi que aquele brilhante técnico tivesse sido surpreendido pela morte, em pleno trabalho, em 26 de Novembro de 1907.

Os trabalhos de correcção torrencial prosseguiram, mas a um ritmo bastante lento, até que em 1941, agora sob a direcção do engenheiro Mário Amaro dos Santos Gallo, tiveram o incremento que permitiu posteriormente avançar com a regularização do Rio Lis, até à sua foz, e à recuperação dos férteis campos do Vale do Lis.

in Diário de Leiria, 5 de Setembro de 2011

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A educação e a comunidade

CLARISSE LOURO
Membro do Conselho Consultivo da ADLEI

A Associação para o Desenvolvimento de Leiria (ADLEI), para além de se preocupar com os mais directos factores de desenvolvimento da nossa região, assume-se cada vez mais como uma escola de cultura cívica e num pilar da mobilização para a cidadania participativa.

Neste quadro promoveu, nos últimos dois anos, um concurso - Concurso Região com Futuro, Projecto(s) de Cidadania – de âmbito regional (Leiria e Oeste) e dirigido aos estudantes do 12ºano, da Área de Projecto.

A Área de Projecto é uma área curricular não disciplinar e de frequência obrigatória no 12º ano que tem como objectivo estabelecer uma ponte entre a escola e a sociedade. É uma forma de colmatar um currículo por vezes demasiado teórico e livresco e de integrar os alunos (mas também professores) na realidade económica e social da sua região, de modo a desenvolver neles o espírito de integração e interacção social e o sentido da participação cívica. Que, por isso, é de natureza interdisciplinar e transdisciplinar, e visa a realização de projectos de aplicação directa às diferentes áreas da realidade regional objectiva.

Estranhamente o Ministério da Educação aboliu esta área do currículo escolar. Esta inoportuna e despropositada decisão é justificada, tanto quanto veio a público, pelo entendimento de que seria excessivo o tempo dispendido por professores e alunos… Um problema de conceito, parece-me! Muito ou pouco tempo, ou ainda tempo gasto ou tempo investido… E de resultados!

Tive a oportunidade e o grato prazer de integrar a comissão científica e o júri deste concurso que, como é bom de perceber por esta lamentável decisão do Ministério da Educação, se esgotou nestas duas edições.

Nessa qualidade apraz-me registar a extraordinária qualidade das dezenas de trabalhos apresentados a concurso. Projectos de altíssimo nível pedagógico e de grande objectividade, fortemente inovadores e, em muitos casos, de assinalável relevância económica, apenas possíveis pela grande capacidade e pelo enorme empenhamento de professores e alunos. Projectos que prestigiam a região mas que prestigiam, antes de tudo, esses professores e alunos - a escola que eles constituem - e, finalmente o ensino público de qualidade que se faz na nossa região.

Num país sempre pronto à crítica e avaro com o elogio é preciso divulgar o que se faz bem. E de bom, porque apenas um ensino de muita qualidade consegue produzir os trabalhos que apareceram a concurso nestas duas edições do Concurso Região com Futuro, Projecto(s) de Cidadania!

in Diário de Leiria, 16 de Agosto '11

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O campo na «civitas»

JOAQUIM HELENO
Associado da ADLEI

A actual situação do País e as tendências expressas, há pouco, pelo eleitorado tornam premente um reexame da afectação dos recursos pátrios, obrigando-nos, perante a sua escassês, a optimizar até ao limite as respectivas valias, designadamente a dos solos.

É que, com a entrada de Portugal na CEE, em 1986, evidenciaram-se as debilidades socio-estruturais concretamente da agricultura portuguesa, até aí fortemente protegida, pelos custos de transporte e pelas armas aduaneiras e de contingentamento; e, de seguida, criou-se o logro de podermos abandonar a agricultura e pescas, porque a Europa com as suas políticas de especialização produtiva, nos alimentaria. Portugal apenas havia de dedicar-se às áreas de actividade em que dispunha de “vantagens competitivas”, no arranjo europeu. Situação a que não foram alheias equipas dos Governos de Cavaco Silva: v.g. os abates de pesqueiros e o set-aside dos anos 90, a acrescer ao atávico desprezo nosso pelas tarefas agrícolas.  

E, no entanto, muitos de nós ainda se lembram de que, não há muitas dezenas de anos, Leiria era em boa parte abastecida, nomeadamente de frescos, por pequenas explorações que marginavam o rio, logo a partir da ponte do Arrabalde. Mais para jusante, quando a bacia do Lis se espraiava, matava-se então, à sacholada, por um palmo de terra ou simples desvio dum fio de água para rega... Agora, parte delas abandonadas. 

Tenho sido, na imprensa, a este propósito uma voz tímida no deserto. Também o Presidente da República, ele próprio, volta a apelar à agricultura... Mais vale tarde...

Urge, pois, perante o défice agrícola nacional, fazer uma reflexão séria, tecnicamente sustentada e prospectiva sobre o futuro da utilização agro-silvicola dos solos, designadamente da faixa litoral que vai de Pombal aos limites de Óbidos - com destaque para a agricultura em toda a bacia do Lis, campos de Alcobaça e Cela e nos concelhos imediatamente a sul. Tanto mais quanto neste estádio da sociedade lusa, encandeada pelas novas tecnologias de comunicação, se pensa frequentemente poder criar-se riqueza, sentado, apenas com... um portátil e um telemóvel à mão!

Aquando dos trabalhos preparatórios para as negociações de adesão de Portugal à CEE foram produzidos bastantes estudos académicos sobre a estrutura fundiária da exploração agrícola e o perfil etário, de escolaridade e organizacional do agricultor português. 
Penso que faltam trabalhos do mesmo género, globais, para períodos mais recentes, levando já em conta o último recenseamento, e especificamente para a região de Leiria, onde domina como suporte dessa actividade, para mais, o minifúndio.

Talvez se devesse pedir aos Serviços regionais do Ministério da Agricultura a iniciativa desse inventário pelos seus técnicos, privilegiadamente conhecedores - no dia-a-dia com eles - dos problemas do ramo.

Nomeadamente, no tocante ao cadastro da área média das explorações agrícolas (superfície agrícola útil) ou silvícolas da região; idade dos seus empresários, grau de escolaridade ou de formação específica; sua atitude perante as várias formas de agrupamento na actividade e de organização de sistemas conjuntos de recolha e escoamento das produções; e, finalmente, o grau de disponibilidade das instituições de crédito para apoiarem este segmento vital para um mínimo de soberania nacional (“a reserva alimentar estratégica”).

Mas não seria sacrilégio se a ADLEI, estatutariamente promotora da cidadania, liderasse também esses dados para reflexão-debate entre o “campo” e “cidade”, ou seja,  com os agentes económicos do sector, respectivas organizações,  os  parceiros que lhes prestam de bens ou serviços, e os que deles se abastecem,  maioritariamente sedeados na cidade-edifícios (“urbs”): todos integrando, afinal, a “civitas”, a cidade-comunidade. Deixando o campo de ser, nessa composição, a actividade bastarda da Economia e favorecendo tal diálogo o apuramento partilhado de soluções realistas para o futuro da agricultura regional, compatíveis com as estruturas socio-fundiárias locais e os condicionamentos e virtualidades da famigerada PAC.

Trabalho, ainda que com uma metodologia um tanto diferente, tal Associação tem já parcialmente em curso, com a colaboração de algumas Câmaras, hoje com múltiplos poderes nesta área. Que seja, desde já, bem-vindo nesse retorno ao campo!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Temos o que precisamos: os Leirienses

JOÃO PAULO COSTA
Associado da ADLEI
Falar de Leiria e do seu desenvolvimento é cada vez mais apelativo na perspectiva da solução.

Todos nós concordamos quanto ao ponto de partida: primeiramente uma crise devastadora a uma escala global e depois uma falta grave de estratégia a nível nacional e local em todos os planos.

Leiria é hoje uma região diferente em bastantes pontos ainda assim e no essencial nunca planeou, nunca avançou. Aliás, melhor dizendo: a ADLEI planeou, os grandes Leirienses pensaram, alguns políticos sobretudo jovens sonham ainda com esta estratégia, o problema sempre foi e será o Poder Político.

Esta é uma fase de mudança e Leiria tem de aproveitar a oportunidade para mudar. Leiria tem de assumir um caminho, um rumo e ambicionar o quer ser daqui a duas décadas…e desenhar uma estratégia para tal.

Assim afirmo ainda não somos, mas e num breve instante podemos ser: capital da Cultura portuguesa. Podemos ser uma referência da Arquitectura e das Artes. Seremos berço de grande Académicos e Atletas. Podemos liderar a Economia nacional. Seremos o impulso na Inovação, Investigação e Desenvolvimento para o País. Seremos referência no Turismo. Temos a obrigação de ser os primeiros a respeitar o Ambiente e a cuidar da Natureza. Liderar nas Renováveis na escala do consumidor. Referência na Integração económica e social, com uma solidariedade exemplar. Seremos em 2030 a capital da qualidade de vida. Leiria pode ser isto.

Para os que não concordam por qualquer razão pergunto apenas: porque não? Nós já temos tudo o que precisamos… os Leirienses.


in Diário de Leiria, 4 de Julho de 2011

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Leiria - o futuro começa hoje


ANABELA GRAÇA
Presidente da ADLEI

Ao percorrer e olhar para Leiria e o seu concelho constata-se que há ainda muito a fazer. Desde logo na cidade onde facilmente se vê a falta de ligação e presença dos leirienses no espaço público e que importa trazê-los para a rua enquanto espaço de convívio e de sociabilidade. A cidade esvaziou-se de pessoas, por razões que se prendem com a atracção que representa o centro comercial, mas também pela inexistência de condições e iniciativas que possam chamar os cidadãos.

O comércio tem definhado e o cenário no centro histórico é sempre o mesmo – abandonado e vazio. Para alterar a situação seria necessário criar condições para povoar a baixa da cidade com gente mais jovem que pudesse encontrar no mercado de arrendamento uma solução para a sua vida, acreditando-se que esta seja a tendência objectiva nos próximos anos, atendendo às restrições de concessão de crédito que se avizinham. Tornar a cidade mais viva e habitada deve, portanto, ser uma prioridade, tal como a de criar condições para reabilitar a periferia urbana onde as carências são patentes, quer de espaços públicos qualificados, quer de equipamentos sociais. No plano ambiental a solução tão desejada de uma bacia hidrográfica do Lis livre de poluição arrasta-se inexplicavelmente.

Por outro lado, em termos culturais, tem-se sentido um abrandamento da dinâmica, no que diz respeito à realização de eventos culturais regulares. Temos alguns exemplos: o MIMO, que precisa de aprofundar a sua relação com a cidade e o concelho, o castelo, que continua altaneiro, incomunicável e inacessível, o Mercado de Santana ao abandono, ainda que requalificado e a Feira de Velharias, que não dignifica a “sala de visitas da cidade”.

Deslocalizar serviços para o centro da cidade poderia, também, trazer vantagens, promovendo um maior afluxo de pessoas. Contudo, faz falta o estacionamento mais barato, tendo a privatização deste serviço contribuído para que cada vez menos pessoas se passeiem pela urbe.

A política de transportes urbanos deu passos, mas insuficientes. O serviço não é apenas escasso, é o seu próprio funcionamento que não é conhecido. A Câmara prestaria um bom serviço público se estivesse atenta às reais necessidades dos cidadãos, apresentando soluções de mobilidade urbana mais eficazes.

A insegurança está a instalar-se na vida dos comerciantes e das pessoas em geral. A falta de policiamento e de vigilância terá que ser enfrentada e resolvida, sob pena de caminharmos para um futuro mais incerto.

Deviam privilegiar-se soluções marcadas pela relação da cidade com a natureza. Neste contexto, a inclusão de verde urbano pode ser crucial e proporcionar múltiplos aspectos de bem-estar, de saúde e de satisfação cultural, humanizando as ruas com árvores adequadas.

Falta uma visão que promova o futuro, não deixando de olhar para o passado, tentando emendar erros, apostando na novidade e na ruptura. Falta brio nas coisas que podem distinguir Leiria. Por essa razão, são necessários projectos que façam vibrar o espaço público e apelem a uma maior participação de todos na resolução dos problemas da cidade.

in Diário de Leiria, 20 de Maio de 2011

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um olhar sobre a cidade

JAIME PEREIRA
Associado da ADLEI

Numa altura de dificuldades (e em que mais dificuldades se avizinham), em que tantas vozes se fazem ouvir e em que urge a necessidade do contributo de todos, bons exemplos vão surgindo. Neste contexto, verificamos o nascimento de movimentos e a saída à rua das pessoas em iniciativas em que reinam a contestação e o inconformismo. É disto exemplo o movimento Geração à rasca que umas vezes melhor que outras vem chamando a atenção para o problema social da integração dos jovens no mercado de trabalho e que, utilizando as novas tecnologias, conseguiu juntar por todo o país centenas de milhares de pessoas a lutar pelos seus direitos.

Se, por um lado, é de saudar a luta das pessoas, a forma como denunciam os seus problemas e responsabilizam a classe política é, também, tão ou mais importante, a defesa construtiva de soluções alternativas, quer para as políticas nacionais, quer para os problemas locais e regionais.

Focarmo-nos em problemáticas colectivas e sairmos do individualismo é, hoje, mais difícil que nunca, conhecendo nós os sacrifícios que vêm a ser pedidos. No entanto, a luta pelo bem comum e a prossecução do interesse público que este salto (do individual para o colectivo) acarreta é indispensável ao despertar das consciências e ao desenvolvimento social, económico e cultural. Verificar que os bons exemplos existem é, por isso, razão para sermos optimistas. Mais quando surgem dos mais jovens, como foi o caso de alunos do 11º ano da Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo que, ao “olharem” para a sua cidade de diferentes perspectivas (património, centro histórico, cultura, ambiente, comércio, turismo e desenvolvimento económico), identificaram problemas e estudaram soluções. A apresentação dos trabalhos realizados sobre Leiria no âmbito da disciplina de Geografia teve lugar no passado dia 4, na ESECS e os contributos e conclusões são da maior relevância.

Se é por si óptimo que a Escola e os professores conduzam e orientem os alunos na vida cívica e participativa é, por outro lado, ainda melhor, notar que os alunos correspondem com gosto e seriedade.

Mais do que o futuro, o presente depende, em grande parte, da participação de todos, sendo que este tipo de iniciativas carrega uma dupla importância: a formação cívica dos alunos promovida pela escola e o contributo dos mesmos ao desenvolvimento da sua cidade, da sua região e do seu país.

in Diário de Leiria, 23 de Maio de 2011

domingo, 1 de maio de 2011

O papel dos roteiros culturais


ORLANDO CARDOSO
Associado da ADLEI 

O sucesso de uma viagem depende, naturalmente, do primeiro impacto que o lugar, ou sítio, visitados provocam no viajante. As alternativas desse primeiro contacto são simples: conquista-o e o sucesso da visita é óbvio, ou repele-o de um modo que, muitas vezes, se pode tornar definitivo.

É verdade que o viajante prevenido vale por dois e a prevenção tende a incidir cada vez mais sobre os materiais de apoio a que tem a possibilidade de aceder, garantindo-lhe o despertar necessário para a descoberta de encantos que podem ser, ou tornar-se, gratificantes. Contudo, numa sociedade de informação como a nossa, torna-se cada vez mais importante que os anfitriões promovam de modo sóbrio e atractivo os lugares que lhes couberam em sorte, recusando muito do lixo que se divulga como sendo propaganda turística.

Viajar é um acto cultural que se distingue de turismo, diferença de que falaremos em próxima oportunidade. É fundamental para o viajante dispor de materiais de apoio que possam ir ao encontro dos seus interesses. Isso implica um esforço das entidades responsáveis na organização de roteiros temáticos capazes de ajudá-lo a organizar os seus trajectos sem necessitar de outro guia além do roteiro que leva nas mãos.

Os roteiros culturais podem e devem ser diversificados, abrangendo as mais diversas áreas. Eles não se excluem uns aos outros, mas completam-se e cumprem a sua função de dar uma visão completa do que há para oferecer. Compete aos responsáveis pela dinamização cultural leiriense a vontade de implementar, na prática, estes percursos, tornando-os numa realidade permanente e não apenas pontual. As bases desse trabalho estão lançadas, urgindo a sua potencialização e diversificação em áreas eventualmente não abordadas.

A região de Leiria, mais precisamente a cidade, possui hoje alguns roteiros culturais que vão no sentido da unidade na diversidade de que falámos atrás. Embora a sua elaboração não tenha tido uma coordenação efectiva, nem sido planificada, estes roteiros resultam do esforço de muitas pessoas que amam a cidade e que fizeram trabalhos de qualidade muito acima do que é habitual encontrar noutras paragens. De facto, Leiria dispõe de roteiros sobre o Castelo, Korrodi, Miguel Torga, do Moinho de Papel à Tipografia, Leiria Queirosiana, o Centro Histórico, Compras e outros. Estes roteiros permitem, actualmente, ao visitante conhecer e fruir aquilo que torna a cidade peculiar e fascinante.

Leiria não é apenas um lugar “onde há umas ruínas”, como escreveu Eça de Queirós. Mas é necessário que o âmbito dos roteiros culturais que temos se alargue em termos temáticos, de modo a que seja possível assumir que há muito mais para ver, além do castelo.

in Diário de Leiria, 25 de Abril de 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

ADLEI propõe Conselho Municipal de Juventude

DIOGO GASPAR
Membro da Direcção da ADLEI

Em Leiria, como na maioria das cidades europeias, o espaço de diversão nocturna confunde-se com o seu centro histórico. Todos os anos se discute o problema do ruído e do vandalismo na cidade durante a noite – os moradores do centro queixam-se da atitude dos jovens, sobretudo dos estudantes, da falta de vigilância da polícia e questionam o licenciamento de certos estabelecimentos.
-
A frequência de espaços nocturnos diz respeito à liberdade individual de cada um e a actividade económica que daí resulta está regulada pela lei. As soluções a implementar exigirão o compromisso das escolas e organismos académicos, tomando o exemplo da campanha Diverte-te! Mas com juízo; da Câmara Municipal, vinculada ao princípio da legalidade e do respeito pelos direitos dos cidadãos; da Polícia, cuja actuação deverá ser pedagógica.
-
Em Leiria, tanto o poder como a população têm uma má relação com a história da cidade. Assistiu-se passivamente ao facto das traseiras da Praça Rodrigues Lobo se terem tornado numa ampla ruína medieval, com a qual poucos se identificam e que poucos procuram preservar.

É urgente explorar as potencialidades do património ali existente, com vista a diversificar a oferta de actividades da cidade. É necessário que, tanto a iniciativa privada como o poder público, contribuam para a reabilitação dos prédios devolutos, criando uma nova agenda cultural, e dando um impulso para o rejuvenescimento do centro histórico, ainda que o mesmo dependa de um mercado de arrendamento, que funcione de forma eficaz.

Com o intuito de aproximar os moradores e os jovens estudantes em Leiria a Associação para o Desenvolvimento de Leiria (ADLEI), sugeriu a criação de uma bolsa de estudantes voluntários, capazes de contribuir para causas comuns aos leirienses e àqueles que se fixam na cidade durante o período de aulas. Assim, os estudantes poderiam intervir a nível local e contribuir, eles próprios, para ajudar a solucionar os problemas que eles também já identificam como pertinentes.
-
São problemas como este que nos levam a pensar na criação de um Conselho Municipal de Juventude. Um conselho de natureza consultiva, que participe na definição e execução da política de juventude do Município, com competência em matérias como educação e ensino superior, cultura, desporto, habitação e acção social. Para que a política autárquica de juventude se revele eficaz, é essencial saber quais os anseios e aspirações dos jovens, é necessário conhecer as suas prioridades e preferências, o que só se consegue ouvindo atentamente a sua voz.

in Diário de Leiria, 11 de Abril de 2011


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Leiria e a sua região: alguns dados e muitas interrogações

J. CADIMA RIBEIRO
Associado da ADLEI

1. Afastado que estou do quotidiano de Leiria, tomando o conceito em acepção ampla, a ligação afectiva que mantenho com este território leva-me a olhar com curiosidade para os dados que me vão chegando, acabando surpreendido pelo contraponto que se me oferece existir entre o sucesso económico que vai alcançando e a inexistência de um projecto (colectivo).

2. Uma ilustração ainda recente da realidade a que aludo pode ser encontrada no “Índice Sintético de Desenvolvimento Regional”, onde, no “índice global” o Pinhal Litoral, unidade estatística onde se integra Leiria, aparece na 2ª posição. Ladeando a NUT III Pinhal Litoral encontramos a Grande Lisboa, em expectável 1º lugar, e o Baixo Vouga.

3. O desempenho que identifico foi alcançado num quadro de estagnação do país, o que acaba por reforçar o mérito do percurso feito. Não quer isso dizer que o território em causa não padeça de constrangimentos vários, que o “índice de competitividade”, presente no mesmo relatório, põe a nu, ao posicioná-lo na 10ª posição. Pior é o retrato que lhe fica na dimensão “qualidade ambiental” (dados de 2006), onde cai para a 21ª posição, num total de 30 NUT III.

4. Referi-me a Leiria em acepção ampla, isto é, se quiserem, à “região de Leiria”. Por outro lado, na invocação de dados, trato do Pinhal Litoral, que será um conceito estreito de região de Leiria. Se a leitura de “região” fosse feita em acepção mais ampla, as coisas complicar-se-iam. Na verdade, ao lado do Pinhal Litoral, o Pinhal Interior, Norte e Sul, e o Oeste são realidades bem diferentes.

5. Na linguagem comum usa-se o termo região em muitos sentidos. Por contraponto, esclareça-se que uma região é, em primeiro lugar, uma comunidade no sentido subjectivo do termo. Tem implícito o sentimento de pertença. É muito mais que um território delimitado por uma “fronteira”, uma estrutura de poder, uma unidade territorial para fins estatísticos. É nesta dimensão que a região pode ser pensada como instrumento de desenvolvimento.

6. Quer-se com isso dizer que, pese o desempenho global positivo que a “região” manteve na última década e meia, é discutível que possa continuar a prescindir de uma estratégia activa. Num quadro de competição aberta, a coordenação de acções, a parceria entre agentes de desenvolvimento, a reunião de massas críticas e a definição esclarecida de apostas em produtos com futuro não parece poder viver exclusivamente de inércias.

in Diário de Leiria, 28 de Março de 2011

domingo, 6 de março de 2011

Geração encravada

ANA NARCISO
Associada da ADLEI


Temos uma geração “à rasca” outra endividada e uma outra encravada entre um passado que não escolheu e um presente que os ignora - a geração sénior - silenciosamente encravada. A este propósito, recordo uma piada registando um diálogo entre avó e neta que fez furor nas caixas de correio electrónico:

- Com a tua idade, eu, já trabalhava!

A neta respondeu:

- E eu com a tua idade, ainda, estarei a trabalhar!

Num diálogo tão simples está lá tudo: a mágoa de uma vida que já passou e a perspectiva de um futuro sem chama.

Como romper este círculo vicioso?

Alterando e adaptando padrões de comportamento incompatíveis com a mudança provocada pelo aumento da longevidade da população. Um benefício evidente não pode ser transformado em pesadelo, porque os responsáveis pela gestão da polis não reagem a factos; incontornaveis para uma geração que se vê excluída, mas que supostamente devia continuar activa e de bem com a vida.

Exigem-se de medidas dirigidas a esta franja (?) da população que quer continuar autónoma , mas que se vê privada de o fazer, refugiando-se em casa à espera de outro dia igual a outro e a outro e a outro. Alguém já exigiu a mudança dos horários da Rodoviária Nacional imutável há mais de 50 anos? Como se podem deslocar aos centros de saúde ou a espectáculos e a outros bens culturais quando não há transporte compatível com a projecção de um filme ou de uma palestra? E neste cenário a geração “à rasca” e a geração – silenciosamente – encravada encontram-se… reféns de uma boleia… O acesso através de transportes públicos é quase inexistente; a dependência é total, a resignação uma fatalidade que gera depressão e revolta.

Há um público à espera de ser contemplado e integrado nas preocupações de quem governa: há gente que deseja participar, intervir e interagir. Há salas de espectáculos por esgotar, palestras por preencher, passeios por dar, cursos por frequentar, por gente, silenciosamente, à espera … que sejam lembrados para além da caridade de uma sopa ou de uma visita apressada. Governar é prever e prover. Porquê adiar?

in Diário de Leiria, 28 de Fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

“Idiotice” - a falta de participação cívica e de cidadania activa

MICAEL SOUSA
Associado da ADLEI

Cidadania, Democracia e Política são conceitos que estão interligados mas que muitas vezes, por preconceito, desinformação ou desilusão com acontecimentos sobre os quais somos supostamente informados, são vividos separadamente, o que resulta numa “fraca” sociedade civil. Será um problema de (pre)conceitos? Então veja-se. Cidadania, pode ser vista, como o modo do cidadão viver e concretizar a sua integração na sociedade em que se insere – uma relação com direitos e deveres. Política é o modo de actuar, pensar e participar na sociedade, pois o termo advém de polis (que se pode definir como a própria sociedade). Ou seja, fazer política é interessar-se pela sua sociedade e participar activamente em tudo o que dela e a ela diz respeito – uma clara relação com o exercício da cidadania activa. Já a Democracia (que significa «governo do povo»), para que realmente exista em toda a sua plenitude, requer, obrigatoriamente, um conjunto de cidadãos que exercem a sua cidadania de um modo político activo e interventivo. Assim, se os cidadãos - o povo - não estiverem disponíveis para se governarem o próprio conceito de Democracia simplesmente, enquanto prática, deixa de fazer sentido. Uma democracia sem cidadania activa seria como uma monarquia sem rei – simplesmente não funcionaria ou teria de se chamar outra coisa.

Então, se queremos defender uma melhor Democracia, temos de assumir os nossos actos de cidadania também como políticos (e vice-versa), enquanto acções que expressam o nosso envolvimento, interesse e disponibilidade para contribuirmos para a causa pública. Só os eremitas, que vivem isolados, se podem definir como completamente apolíticos. Este tipo de apologia é tudo menos nova, tem pelo menos 25 séculos de história e remonta ao período grego clássico, especialmente à polis de Atenas - o berço da Democracia. Os antigos gregos chegaram mesmo a inventar um termo pejorativo para caracterizar aqueles cidadãos que se alienavam do exercício da cidadania (ou política). Utilizavam a palavra «Idiotes», que significava “homem privado”, para adjectivar todos aqueles que se excluíam voluntariamente da participação dos assuntos públicos. Mais tarde o termo evoluiu para outros significados. Para os Romanos «Idiota» Significava então alguém com limitadas capacidades e/ou incapacidade de exprimir ideias e levar a cabo actividades complexas.

Hoje infelizmente muitos tornam-se idiotas (segundo o significado grego) devido à acção de outros idiotas (segundo o modelo romano). Que se combata a idiotice através da participação cívica e política.

in Diário de Leiria, 15 de Fevereiro de 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Um pleonasmo com sentido

ADELAIDE PINHO
Ex-Presidente da ADLEI

Não será a expressão “Cidadania Activa” um pleonasmo? Mas na realidade ela faz sentido, já que todos nos consideramos cidadãos, apesar de nem sempre exercermos os correspondentes direitos e deveres; somos uma espécie de “católicos não praticantes”.

É necessário, e possível, ser-se verdadeiramente cidadão. E isso não se limita ao acto de votar ou ao desempenho de funções vulgarmente consideradas políticas; trata-se do trabalho na defesa efectiva de valores e de causas, a título individual, mas fundamentalmente no âmbito associativo, seja de carácter social, cultural, desportivo ou outro.

Todos somos necessários e só com a participação de todos será possível superar a “maldita crise”. Fazer tudo o que possa melhorar a vida de todos, particularmente dos mais fracos e vulneráveis, é um dever de qualquer cidadão responsável.

É particularmente importante que os jovens conheçam os problemas, reflictam sobre eles e proponham soluções para a sua resolução. Muitos “velhos do Restelo” dirão que elas são impossíveis de concretizar, mas são os impossíveis de hoje que constroem o amanhã. Louvo, pois, a actual Direcção da ADLEI pela aposta na participação cívica dos jovens e incito-a a continuar esse trabalho. Já li e espero ter a oportunidade de voltar a ler, agora neste espaço, textos deles.

Quanto à nossa região, os Congressos da ADLEI já permitiram fazer o diagnóstico das nossas “doenças”; falta fazer o tratamento. Confesso que, sempre que vou “para fora cá dentro”, volto um pouco triste. E este meu “trauma” pós-viagem dentro do país resulta de não ver na nossa região, como tenho visto em muitas outras, o aproveitamento das oportunidades que permitiriam resolver alguns dos nossos problemas, cujas soluções até poderiam ser gratuitas e gratificantes para quem as concretizasse. Haja quem queira agir.


in Diário de Leiria, 3 de Fevereiro de 2011

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A cidadania e a crise

ISABEL DAMASCENO
Ex-Presidente da ADLEI

A participação cívica fora da esfera partidária é uma prática muito comum em democracias com maturidade.

Essa participação é consolidada através do associativismo seja ele cultural, social, desportivo, recreativo ou mesmo através da participação individual em actos que têm como objecto o interesse comum.

A valorização desta participação é tal que há países em que na avaliação curricular de qualquer candidato a emprego, quer seja público ou privado, este elemento é por vezes fundamental na decisão final tomada pelo empregador.

Em Portugal, estamos ainda longe deste nível, fruto sem dúvida da juventude da nossa democracia, da falta de organização da sociedade civil e também da ausência de projectos mobilizadores.

A região de Leiria, tem o privilégio de ter uma organização de intervenção cívica (ADLEI) que tem tido ao longo da sua vida um papel importante na identificação dos problemas da região e contribuído muitas vezes para a resolução dos mesmos, bem como no despertar do interesse, sobretudo dos mais novos, para a participação cívica. 

Em momentos de crise como o que vivemos, os Portugueses dão sempre evidência do seu espírito solidário, o que se tem sentido nas variadas iniciativas levadas a efeito pela chamada sociedade civil.

Talvez seja uma oportunidade para aprofundarmos estas nossas potencialidades naturais, de uma forma organizada, podendo também a ADLEI desempenhar esse papel potenciador. Por vezes as crises têm como consequência alguns aspectos positivos. As dificuldades induzem criatividade, união, discussão aberta e participação no contributo para a minimização dos problemas.

Vamos aproveitar as oportunidades da crise, incentivando a participação cívica de todas as formas. Quando ela passar… estaremos certamente mais maduros no aspecto cívico.

in Diário de Leiria,  17 de Janeiro de 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Escrita e cidadania

ACÁCIO DE SOUSA
Ex-Presidente da ADLEI


Escrever sobre cidadania? O tema nunca está esgotado, mas pode parecê-lo graças à redundância de muitos discursos. Porque não começar, então, por fazer uma pequena reflexão sobre o próprio acto da escrita?

Por exemplo, quem lê e o que valem os artigos de opinião ou outras prosas escritas?

Desconheço até que ponto a imprensa, sobretudo a regional, tem aferido os índices de leitura no que toca aos seus cronistas, mas La Palisse diria que se relacionam directamente com o autor, o conteúdo, a dimensão e o estilo do texto.

Não será pela vacuidade de alguns escritos, sobretudo quando se banalizam por insistência, que escrever não deixa de ser importante. Para quem exerce cargos públicos deveria ser um modo de evidenciar quem é, e o que pensa enquanto zelador de deveres cívicos. Para especialistas desta ou aquela área, deveria ser um momento de pedagogia. Para muitos outros, será um direito de cidadania ao expressarem o que lhes vai na alma. Fica, acima de tudo um testemunho, mesmo que não seja muito lido. O papel social da imprensa também passa por aqui.

De qualquer das formas, há quem escreva convictamente; há quem o faça à medida dos ventos que sopram bolinando na forma que melhor lhe convém; há quem enfaticamente disserte nas trincheiras de um jornal ou da mesa do café sem de lá sair quando lhe é pedido que ponha as suas ideias em acção.

Todavia, mais preocupantes são aqueles que, exercendo cargos de representatividade, nunca deixaram escapar publicamente um registo do que pensam sobre as estratégias nas áreas que estão a seu cargo, de forma a dar a conhecer àqueles que representam dados que permitam um outro envolvimento social no apoio ou na consciência crítica.

Isto ora acontece a nível nacional como regional. Na verdade, quando tanto se fala em equipas que fortaleçam lideranças, se o país ou uma região não conhecem o pensamento de parte dos seus protagonistas, ou nem os próprios, cria-se um deficit de cidadania por falta de informação e participação, debilitando uma verdadeira aposta no desenvolvimento.

Já agora, resta saber também o que vale o que aqui é escrito.

in Diário de Leiria, 3 de Janeiro de 2011



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Fórum cívico

JOSÉ RIBEIRO VIEIRA
Presidente da Assembleia-Geral da ADLEI

A Adlei propôs, em boa hora, um programa de contacto com a comunidade, que designou por “cidadania activa”, na perspectiva de alertar e mesmo acordar as pessoas, especialmente aquelas que têm direitos e deveres que resultam de poder votar, para as consequências negativas de um certo adormecimento a que o exercício da democracia chegou. À “cidadania activa” que se pretende invocar, opor-se-á a “passiva”, aquela que é mais comum sentir-se nas nossas comunidades, seja freguesias, concelhos, cidades, ou outras expressões de território, onde o próprio país também cabe.

A “cidadania activa” que aqui se quer lembrar não é a que se faz nas mesas dos cafés, ou na esquina das ruas, nem sequer nas pequenas tertúlias de bares e outros locais que por vezes se confundem com lugares de diversão. A “cidadania activa” que a Adlei quererá promover é a que diz respeito à eventual discussão pública das coisas que públicas são também, ou seja, que dizem respeito a todos nós. Serão certamente debates, participações políticas diversificadas e transparentes nos partidos, e a mobilização social para causas que urge defender, sob pena de vermos pior a qualidade de vida da terra onde vivemos e deste quase pobre país.

É mais fácil continuar a dizer que as razões das nossas dificuldades residem nos outros, que eles são os culpados de tudo o que está menos bem. É mais cómodo falar mal do Governo, da câmara, ou de outras entidades públicas, acusando-as de não fazerem o que devem, de deixarem poluir rios, de terem construído estádios e outros equipamentos ditos desportivos ou sociais que de pouco servem, criando antes dificuldades ao desenvolvimento da região, seja ela concelho ou país.
É mais fácil permanecer-se à frente da televisão, sentado no sofá, a ver e ouvir o pior que dizem os locutores sobre o pior que o país tem. Porém, a “cidadania activa” que a Adlei quer, é a que passa por todos e cada um, participando nos debates sobre a região, forçando a correcção do que está mal. É a cidadania da contestação, da indignação, se necessário for. Penso eu.
Deixo uma ideia. Que se crie um “Fórum Cívico” no contexto da actividade da Adlei e que se ocupe a Praça Rodrigues Lobo, emblemática da cidade, a discutir uma vez por mês um tema que interesse a todos. Deixo exemplos: a segurança, a célebre despoluição do Rio Lis e, porque não, a despoluição dos mares. A qualidade das praias, o comportamento dos partidos e a forma de os emendar. Bastará criar um palco, distribuir cadeiras pela Praça, criar o tema e convidar os cidadãos a comparecer com propostas e ideias que poderão servir de solução a apresentar a quem tem responsabilidades de corrigir tanta coisa pública e até privada, que está mal.
Não faltariam assuntos e penso que gente também não, se fossem planeadas as acções e divulgadas com tempo. Claro que esta “ocupação” pressupunha autorização cívica da câmara, certamente desejosa de participar neste contexto da activa cidadania.

in Diário de Leiria, 20 de Dezembro de 2010

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O futuro começa já amanhã

PEDRO MELO BISCAIA
Ex-Presidente da ADLEI

Por mero acaso, li um provérbio oriental que dizia “ninguém tropeça numa montanha”! Há, subsequente a estas palavras da ancestral sabedoria meditativa de raiz pragmática, uma curiosa noção de estratégia prospectiva, entendida como a forma de tomarmos, hoje, as opções decisivas para o futuro. A dimensão da montanha, ou se quisermos do problema, determina que se encontrem modos de a/o contornar ou de a/o superar através de uma abordagem coerente e eficaz, podendo daí resultar a descoberta de oportunidades onde, aparentemente, só existiam dificuldades intransponíveis. Esta via exige arrojo e mobilização dos meios existentes, sabendo usá-los na proporção adequada entre as necessidades e as possibilidades. Pelo contrário, o que nos faz tropeçar, são pequenos escolhos a que nem sempre damos a atenção devida, são os imprevistos para os quais não temos resposta preparada ou são os obstáculos sobre os quais fazemos uma avaliação diagnóstica insuficiente.

Esta ilação, suscitada pelo referido provérbio oriental, aplica-se quer à vida de cada um, quer à gestão de organizações ou à governação da cidade. O grande problema, quando devidamente identificado, pode ser enfrentado através de uma equilibrada alocação de recursos, na definição de uma hierarquia de prioridades ou na definição de uma sequência de acções pró-activas. Ou, em extremo, poderá ser evitado numa conduta mais esquiva seguindo o conselho que Sun Tzu escreveu há 2000 anos: “ dominar o inimigo sem o combater, isso sim, é o cúmulo da habilidade”. Porém, são as pequenas dificuldades, aparentemente desconexas entre si que, uma vez somadas, podem tolher os nossos passos distraídos da realidade concreta. Dito isto, creio que o planeamento estratégico, sendo um instrumento essencial de gestão prospectiva, não pode ofuscar os pequenos-grandes nadas de que se reveste o nosso presente e que definem a qualidade do quotidiano dos cidadãos. Assim sendo, a participação (formal e informal) de um alargado número de actores sociais no debate associado à decisão, é fundamental para inventariar as legítimas aspirações comunitárias permitindo, em fase posterior, sintetiza-las em vectores seguros de desenvolvimento colectivo e, simultaneamente, ir implementando acções de demonstração do rumo pretendido.


in Diário de Leiria, 6 de Dezembro de 2010

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A região de Leiria e a crise: que fazer?


TOMÁS OLIVEIRA DIAS
Ex-Presidente da ADLEI
-
Ninguém tem dúvidas de que a crise está instalada entre nós e que veio para ficar. De uma maneira ou de outra, estamos em tempo de «vacas magras», na terminologia bíblica.

Neste debate sobre a crise tem-me impressionado a falta de perspectivas regionais na discussão. Disso não se fala. Analisa-se a situação numa perspectiva nacional e esquece-se que a crise não assume contornos iguais nas diversas regiões do país.

Por outro lado, o debate nacional tem sido monopolizado pelos partidos e pela comunicação social. Quem dá voz aos cidadãos em geral? Tenho para mim que há que generalizar o debate e alargá-lo ao âmbito regional. Que esperar da crise e como combatê-la ? Nas várias regiões e, claro está, na nossa. Como defender Leiria nos diversos domínios? Quais os objectivos a prosseguir e medidas a incrementar? Para tanto há que abrir o debate com as autarquias, associações em geral, sindicatos e simples cidadãos, por forma a que as diversas forças procurem vias de consenso e acordem em actuações.

Como realizar os estudos e debates necessários? Julgo que deverá ser incrementado o diálogo com os partidos e com os nossos deputados, que pouco vemos entre nós, e que não deveriam limitar-se a dar informações no seio dos seus partidos. Do mesmo modo, deverá ser solicitada a colaboração da comunicação social da nossa região assim como dos representantes da comunicação social nacional na zona.

No que toca ao estudo dos problemas, as diversas instituições envolvidas deverão reunir-se em grupos de trabalho para aprofundar, a nível local, temas concretos como o dos reflexos da crise no mundo das empresas, comércio, indústria , agricultura, turismo ; nos aspectos sociais, desemprego, pobreza e exclusão; no que se refere à educação nos diversos graus de ensino e, assim, por diante.

Finalmente, parece-me oportuno convocar para 2011 um grande fórum distrital, sem esquecer Ourém, com a participação de autarquias, associações, de responsáveis e especialistas nos diversos domínios, divulgando-se as suas conclusões e pugnando para que sejam postas em prática. Este fórum bem poderia ser organizado por associações como a Adlei e constituir o 5º Congresso para o Desenvolvimento de Leiria e da sua Região. Quanto a mim nunca foi tão necessário. A hora é grave para todos. Não nos mantenhamos em silêncio, nem nos fechemos na concha. É tempo de actuar. Fica a sugestão.


in Diário de Leiria, 22 de Novembro de 2010

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Associativismo e revitalização da sociedade

ANABELA GRAÇA
Presidente da ADLEI

A Associação para o Desenvolvimento de Leiria – ADLEI, ao assumir-se, desde 1989, como uma associação cívica, tem como propósito o estudo, a defesa e a promoção do desenvolvimento económico, social e cultural da Região de Leiria. A sua actividade cívica e não partidária, é pautada pelos princípios da liberdade, da justiça social e da tolerância. O que sempre moveu a ADLEI foi a participação activa dos cidadãos na execução das políticas públicas, tanto locais como de âmbito nacional, que se reflectem na Região. Não temos dúvidas que um regime democrático tem os seus pilares nos partidos políticos, mas a opinião pública é um factor orientador e por vezes corrector, indispensável às tomadas de decisão política. É este contributo participativo numa

democracia representativa, a razão da existência das associações de carácter cívico. Por isso mesmo, todas as iniciativas da ADLEI sublinham, desde sempre, esta perspectiva, manifestando capacidade de autonomia, demonstrando vitalidade, gerando energia social, motivação, criando sentidos e o seu próprio espaço na região.

A direcção da ADLEI, em parceria com o Diário de Leiria, jornal que tem tido um papel muito importante como órgão da imprensa regional, faz hoje a abertura do espaço – CIDADANIA ACTIVA, procurando dar mais um contributo para a reflexão que se pretende plural, convidando os seus associados a expressar as suas opiniões, possibilitando a apresentação de novos indicadores para o lançamento de estratégias comuns, fortes e decididas, entre os agentes políticos, económicos e sociais.

Os associados da ADLEI são actores da sociedade civil que lutam pela resolução de problemas sociais, ampliação dos direitos políticos e da consciência da cidadania. Estão interessados em efectivar a sua condição de cidadãos de uma forma activa, isto é, pretendem agir e intervir na sociedade procurando, deste modo, transformá-la. Entendemos que os leitores do Diário de Leiria vão encontrar, na leitura de textos de diferentes autores, a possibilidade de construir um olhar crítico e construtivo sobre as diversas dimensões da nossa vida colectiva e que serão ao mesmo tempo de robustecimento da consciência cívica. Se assim for, teremos oportunidade de fortalecer o associativismo voluntário, com a constituição deste espaço de socialização cívica, política e cultural importante para a consolidação e aprofundamento da democracia.

Acreditamos que o associativismo e a participação activa são eixos nucleares de qualquer política de desenvolvimento, na medida em que constituem um suporte decisivo na construção de solidariedades, que são a expressão de uma forma de vida em comunidade, que favorece o exercício da democracia e da cidadania, permitindo, assim, a revitalização da sociedade.


in Diário de Leiria, 8 de Novembro de 2010